quinta-feira, 12 de março de 2009

O lago


Havia muito que caminhava. A minha boca estava seca e sabia a pó. Os meus pés mal suportavam tocar o chão. Há tanto tempo que caminhava sem rumo que me sentia profundamente cansada e abatida. O sol abrasador tinha deixado marcas profundas na minha pele branca e o meu andar, outrora seguro, era agora periclitante e errático. Sentia-me perto do fim. Olhei o horizonte e pareceu-me ver algo azul. Pensei: é uma miragem. Desfaleci.
Quando abri os olhos estava deitada numa cama feita de seda à beira de um lago. O lago. Uma mulher jovem limpava-me o rosto com um pano macio. Estava lavada e já não tinha sede. Soergui-me e pude ver que o lago era azul-escuro, como os meus olhos. De um lado salgueiros-chorão, do outro, choupos. Vi vários homens e mulheres deitados na relva. Uns liam, outros desenhavam, outros deitados de costas viam as nuvens lá no alto. Vestiam-se de azul. Túnicas azul céu de seda esvoaçante. Pareciam em paz. A mulher olhou-me e sorriu. Eu sorri também. Com um gesto convidou-me a levantar e avançar até ao lago. Entrei de mansinho, um pé depois do outro. A água era fresca e límpida. Não senti frio. Fui entrando até não ter pé. Abri os braços e deslizei pela água. De costas, deixei-me estar ali no meio do lago, flutuando. Via os fiapos brancos no céu mais azul que alguma vez tinha visto e senti a tranquilidade invadir cada bocadinho do meu corpo. Fechei os olhos para melhor poder gozar o momento. Quando os abri, já estava a escurecer. Vi-me envolta na penumbra. O lago reflectia a cor cálida das fogueiras na praia. Estranho, pensei, não senti frio, nem fome, nem cansaço. Que lugar seria aquele que o frio e a fome não se faziam sentir? Nadei até à margem e sai caminhando na areia pelo meio das fogueiras. No céu a primeira estrela despontava brilhando suavemente. Um homem esperava por mim. Quando cheguei perto estendeu-me a mão e disse-me:
- Chegaste a casa finalmente. Que bom. Estava à tua espera.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Fecho os olhos e...


Daqui não o vejo, mas sei que está por perto. Sinto-o. Fecho os olhos e vejo-o. Está perfeito. Vem ter comigo e abraça-me, acaricia-me. Obriga-me a abrandar o ritmo. Mal se nota que respiro porque a tranquilidade invadiu o meu corpo e me deixou languida. Deito-me na areia branca e deixo que me aqueça cada centimetro de pele. O cheiro da maresia invade-me, refresca-me. A areia é quente, mas macia. Sinto-a nos pés descalços. Queria abrir os olhos, mas não o faço. Sei que se os abrir vou voltar à realidade e não quero. Não me apetece sair dali. Não queria abrir os olhos nunca mais. No sonho que sonho acordada imagino que o mar é azul, tão azul que o mar e o céu se confundem. Uma brisa ligeira agita-me os cabelos e faz-me sorrir. Foi uma caricia.


Abro os olhos. Não sei quanto tempo passou. O encantamento desapareceu. A realidade é mais feia. Deixo o sol e a areia e o mar irem embora. Vão, vão, vão embora, digo eu, mas não se afastem muito, em breve sonharei de novo....

segunda-feira, 9 de março de 2009

As estrelas e as flores de papel

Vi as estrelas. Aqui ainda se vêem as estrelas nos raros momentos em que nos lembramos que olhando para cima há uma obra de arte para admirar. Muitos já não se lembram da ultima vez que viram uma estrela no ceu. Como se pode viver sem olhá-las? Sem imaginar que se pode voar de estrela em estrela, brincar com a cauda de um cometa? Não as entendo, a essas pessoas que perderam a capacidade de imaginar. Nem entendo que se esqueçam que o mundo não é só feito de trabalho e dinheiro e problemas, mas também é feito de mar e de estrelas e de flores.






Nem uma brisa corre nestas ruas que calcorreei e por isso as magnólias e as camélias parecem feitas de papel, de tão quietas que estão. Não pareciam reais. Estiquei a mão para lhe tocar, mas pareciam mais longe a cada passo meu. A luz mortiça dos candeeiros da rua fazia-as parecer irreais. Ou pinturas. Pareciam pinturas. São tão belas as flores. Estão resguardadas por grades como se fossem objectos preciosos de valor incalculavel que ninguem pode tocar. É pena, coisas tão belas deveriam ser mantidas ao alcance de todos. As coisas belas quando tocadas têm o condão de passar imediatamente boas sensações a quem as toca.
Caminhei pelas ruas desertas, respirei o ar frio da noite e ouvi os meus passos. Admirei as flores e as estrelas, um gato passou por mim devagar. A par disso, os meus pensamentos eram tantos e sobre tantas coisas que tive que me obrigar a parar de pensar. Foi aí que vi as estrelas e sorri.

domingo, 8 de março de 2009

O espelho






Tenho um espelho partido. Todos os dias passo por ele, deito-lhe um olhar distraido, confirmo que sou eu e sigo a minha vida. Hoje olhei-me no espelho partido com mais atenção e disse:

- Estou velha...

O espelho devolveu-me o comentário com o silêncio. Insisti.

- Estou velha...

Novamente o silencio. Olhei-me novamente e vi cabelos brancos. Vi pequenas rugas em volta dos olhos. Vi alguns quilos a mais que pareciam ter idos todos parar às bochechas. Atentei nos olhos. Eram olhos de velha. Olhar mortiço e sem brilho. Olhar de quem já não sonha. Olhar de quem sofreu e chorou. Olhar onde se lê que o fim não estará longe. Procurei o bilhete de identidade e confirmei a data. Parecia estar tudo correcto como da ultima vez que o vi. A idade batia certo com o que me lembrava, tudo parecia nos seus devidos lugares. Mas não batia certo com aquele olhar. Porquê aquele olhar? Não compreendi. Não me apeteceu chorar. Peguei num pano negro e tapei o espelho.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Pensamento...


Escrevi uma história de amor


suave, intensa, cheia de cor


escrevi-a em vez de a viver


porque me faço sofrer?





não sei.






quarta-feira, 4 de março de 2009

Nada mudou











O sol não parou de brilhar
O mar não parou de subir e baixar
As flores não pararam de crescer
E o vento não parou de correr
A chuva não parou de cair
E o calor fez-se na mesma sentir
A neve continua branca e bela
E a flor do campo continua amarela
Os pássaros fazem ninho nos beirais
Como em todos os anos, iguais
O nono mês é Setembro
Tal como desde que me lembro
O cheiro das rosas continua maravilhoso
Assim como o da canela delicioso
Nada no mundo mudou
A ordem das coisas não se alterou
Todas continuam no mesmo lugar
Onde se acostumaram a estar
E nem choveram meteoritos
Nem ouvi ninguém aos gritos
Só porque tenho a alma vazia
Que ao contrario do que se dizia
Ainda ninguém veio preencher
E assim, aos poucos, foi fácil esquecer
Como se ama alguém de coração
Ficando apenas a eterna solidão!




Cláudia Moreira
“Poemas de Amor e Desamor”

segunda-feira, 2 de março de 2009

não tenho voz




às vezes tenho a sensação de que a minha vida é como um sonho. um sonho daqueles em que as nossas bocas se movem formando palavras, pedidos de socorro, gritos de desespero, mas nem um único som nos sai da garganta...

não tenho voz.