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sábado, 5 de março de 2011

Mendigo...





Mendigo o teu sorriso claro…
Mendigo-o para que ilumine o meu dia.
Mas apenas a cor cinza cobre a vida à minha volta.
Depois peço encarecidamente o brilho dos teus olhos…
Para que fique preso nos meus.
Mas não o sinto, não o vejo.
Mendigo o calor das tuas mãos…
E estendo as minhas na tua direcção e espero…
Mas espero em vão.
Pergunto-te no meu coração se pensas em mim…
Mas apenas recebo um silêncio rotundo, desconfortável.
Depois, dentro de mim a certeza de que não me vês.
Sou transparente, talvez feita de vidro, talvez feita de ar.
Sou uma mendiga…
Sou uma mendiga de beira de estrada…
Igual a qualquer mendigo que pede esmola num passeio de rua.
Mendigo e estendo as mãos e escondo o olhar tímido.
Sou uma mendiga da tua atenção.
Mendigo um pouco de ti na beira da tua estrada.
E espero.
Em vão. Espero sempre em vão.


Cláudia M.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Post-scriptum






No meu corpo estás tu

Dentro de mim, fora de mim, em mim…

Para sempre…

Nos meus lábios o gosto adocicado

Dos teus lábios carinhosos… ansiosos…

Para sempre…

Na minha boca ainda a tua língua

Segura e quente… num pedido urgente…

Para sempre…

Na textura dos meus dedos

Os teus dedos suaves… irrequietos…

Para sempre…

Nos meus ouvidos o som da tua voz

Quente, envolvente a dizer palavras de amor…

Para sempre.

Nos meus negros e longos caracóis rebeldes

Ainda a urgência quase bruta dos teus dedos…

Para sempre.

O teu perfume aprisionado em cada poro

Da minha pele, agrilhoando-se a cada fino pêlo meu…

Para sempre…

Na minha branca epiderme estás tu

Intensa e profundamente tatuado…

Para sempre.

Para sempre.





Cláudia M.



*Poema que escrevi para fazer parte de um texto do meu blog "Coisas Minhas".

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Inverno





Olho, triste, pela janela e já é noite cerrada

A chuva cai na vidraça, atormentada

Fustiga as árvores semi-nuas do jardim

Está um frio cortante também dentro de mim



No peito um órgão que já não bate desenfreado

Nem se importa que esteja quase morto, gelado

Olho-o bem, com muito mais atenção

E percebo que ainda é Inverno no meu coração



Lá dentro de mim o céu está sempre cinzento

E a nuvens pintadas de um tom pardacento

Os rios engrossam com cada chuvada

E a alegria há muito que se perdeu na enxurrada



Grossas gotas pendem das folhas que sobram

Sonhos nelas diluídos hesitam um pouco e tombam

E ali entre a relva húmida os sonhos ficarão esquecidos

Destinados a nunca, nunca virem a ser cumpridos



Os pássaros já não chilreiam nem acasalam

Assim como as saudades já não me abalam

Afinal já nada é para ficar, já nada é eterno

Pássaros e pessoas abalam sempre no Inverno



Os cortantes ventos gélidos que vêm do norte

Trazem consigo tristes anúncios de morte

Morrem sentimentos a cada dia que passa

Mata-os, impiedoso, o vento que os envolve e abraça



E as lágrimas rolam e deixam-me o rosto molhado

Encosto-as à janela que desaparecem no vidro gelado

Tenho tanto frio e ainda é Inverno dentro de mim

Desespero sem saber se um dia este Inverno terá um fim…





Cláudia M.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Final da peça..

De mãos enterradas nos bolsos enfrentei o frio

do mar. na cara, o vento cortante

a magoar-me. na cavidade do peito, o vazio

onde ouvi o eco de um nome e de um sentimento

vão. nas paredes nuas em ricochete

devagar. deixei-me tombar no chão em desalento

mudo. desisti de lutar por algo... patético

doloroso. quero dormir, muito, para sempre

fechar-me no meu pequeno mundo hermético

sozinha. sozinha. sozinha eu sei como viver

desde sempre. não quero que mais ninguém

me respire. não quero acordar e ver

que te foste embora sorrateiro, em surdina

não quero. não quero e nem sequer é pedir muito

acabou. que finalmente se baixe a cortina.

que nem sequer se abra para aplausos frenéticos

acabou. silêncio. apenas silêncio a ecoar no meu peito

nos nossos peitos, afinal desde sempre assimétricos...


Cláudia M.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

As palavras




As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

...muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade...







José Luís Peixoto

in "A Criança Em Ruínas"

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Não nego...

imagem retirada da net

Não nego, porque não posso negar uma evidência. Não nego que quando tu entras tudo fica mais claro, mais brilhante, a luz no tecto fica mais branca, as cores nas paredes mais intensas.

A bebida dentro do copo mais doce, a minha mão no copo mais trémula. Não nego que o ar fica mais quente e o relógio na parede fica mudo.

Não nego que todas as vozes desaparecessem para recantos absurdos do universo.

Não posso negar que me incendeias a pele, que o teu olhar me descarna, me magoa, me arranca os ossos das pernas, dos braços, me deixa mole, bamba, frouxa, perdida…

Cometi um crime, não nego... Cometi o crime de te desejar ardentemente. E punes-me. Punes-me com a tua indiferença simpática, com sorrisos sinceros, com toques suaves no rosto e breves beijos inocentes. Punes-me assim de mansinho… sem querer…

Ai se eu pudesse dizer-te tudo o que me vai dentro do peito… Ai se eu pudesse transformar em voz os pensamentos…

Pedir-te-ia que antes me punisses com beijos sôfregos e quentes… e longos. Que algemasses o meu corpo ao teu corpo. Que me prendesses entre os teus braços. Pedir-te ia: aprisiona-me no teu peito! Ata-me! Possui-me! Ama-me! Sê meu que eu serei tua… Para sempre…

Sê meu…Mesmo que seja apenas por breves instantes…

Não seria menos culpada deste crime em que sou reincidente….mas seria mais fácil pagar as duras penas de não seres meu… para sempre…

Cláudia Moreira


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Saudades...

Tenho saudades de ti.

Tenho falta de sentir-te na minha pele, suave, brusco, intenso.
Quero tocar-te com a ponta dos meus dedos ansiosos numa longa caricia toda ela feita de meiguice... E quero que me toques a mim, me arrebates...me tires o fôlego...

Quero sentir que o teu cheiro se entranha no meu corpo por todos os poros da minha pele numa tatuagem eterna...

Saudades, tantas, de te ver inteiro, belíssimo, garboso e vaidoso. De ver-te pavonear o corpo nu para deleite dos meus olhos e só dos meus olhos...

Quem dera poder sentir o sal do teu corpo na minha boca agora neste instante. Beijar-te longamente, perdida nos teus braços...

Tenho tantas saudades de ti...

...meu mar.




domingo, 2 de janeiro de 2011

Para sempre.




A tarde acabou devagarinho
serena ainda, morna do sol de Outono
Retendo em si o cheiro da terra e o sabor da tua boca
a noite deitou-se comigo e tu também
Pela janela aberta chegou o cheiro do orvalho pousado
nas folhas verdes das árvores que não dormem.
E trouxe consigo de mão dada o odor quente da terra
E das estrelas
aproveitamos a luz distante e trémula.
Fizemos amor em lençóis lavados em água fria
que nasce das entranhas da montanhas e secos ao sol
A tua pele dizia-me coisas que não dizia a mais ninguém
e a tua boca também.
O longo cântico dos grilos misturava-se com a tua respiração
e era música composta pela mão de Deus ou do demónio.
Desejei que o tempo parasse
naquele momento e ficássemos assim
para sempre.
Para sempre.



Cláudia Moreira

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Silenciando a saudade...




No silêncio perco os meus pensamentos

E esses, negros, assolam-me os sonhos

Imensos

Impunes

Impróprios…



Tenho saudades de ti

Presas fundo no meu corpo

Dorido

Cansado

Saudoso…



Não posso ter-te

Já sei... Já sei…

Não o grites mais

Essa verdade …com o teu silencio…



O teu silêncio

Indiferente

Impiedoso

Insensível…



Silencio mais doloroso que qualquer palavra…



Dói

Dói mesmo

A saudade dói…

Dói profundamente como garras espetadas na carne…

Talvez um dia o teu silêncio seja capaz de silenciar esta saudade…

Não sei…







Cláudia Moreira
15-06-2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

Ferida Aberta








Dentro de mim, uma ferida aberta.


A sangrar. Lenta e dolorosamente.


A magoar-me como um punho que aperta.


Um braço. Uma perna. A carne a ficar dormente.




A ferida tem nome de gente.


Mas não posso nem o quero dizer.


Na noite fria choro silensionsamente.


E tudo o que mais quero é esquecer.




É tarde já. Mas nem isso mais importa.


Que durma ou não. Que chore ou não.


Breve, muito breve a carne estará morta.


E tudo não tera passado de um sonho vão.



Cláudia Moreira












quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Não adormeças...





Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.



Maria do Rosário Pedreira
de A Casa e o Cheiro dos Livros

quarta-feira, 10 de março de 2010

dor

imagem retirada da net


lágrimas de ácido
rasgam a minha pele
sulcos profundos marcam o meu rosto
para sempre

dentro de mim
a dor de não te ter

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

azul perfeito




no imenso oceano azul perfeito
dos teus profundos olhos naveguei
e depois, em sonhos, no teu cálido peito
dessa longa viagem descansei...

embala-me agora no teu colo com doçura
deixa-me ser tua por breves momentos
deixa que nas tuas mãos leves de candura
eu guarde todos estes sentimentos...

ah! estes sentimentos que um dia ousaram nascer
desabrochar na minha alma antes serena
e depois nunca mais os pude conter
dentro desta minha alma demasiado pequena...

foi nos teus olhos que me apaixonei
seduzida por esse imenso azul celeste
e dos teus lábios que eu nunca beijei
ouvi palavras doces que nunca disseste...

deixa-me ser tua por breves instantes
abre a tua alma à minha alma cansada
seremos amigos, seremos amantes
e por breves segundos sentir-me-ei amada...

sábado, 16 de janeiro de 2010

poema num dia de chuva



























imagem retirada da net



Pousei o meu pensamento em ti
E deixei-o espreguiçar-se languidamente
Por sobre todo o teu corpo…
Abandonei-me.
Libertei-me das amarras do pudor
E pude sentir-te então em pleno.
Não importa que não saibas que penso em ti
Sei-o eu
Sinto-o eu
Apesar de se apenas em pensamento
É como se te estivesse a sentir
É como se sentisse o morno da tua pele
A sua maciez
E visse como é branco, belo e puro…
Também senti o teu sabor intenso de fruta doce
Nos meus lábios saudosos de ti…
Tenho ânsias de te ver
De te ter
De te sentir
De te descobrir
Mesmo que seja apenas em pensamento…


também publicado aqui

sexta-feira, 13 de março de 2009

Choro, sim

A ouvir enquanto escrevo e sinto....


Choro, sim, finalmente deixo-as sair
Transborda a minha alma magoada
Nada posso fazer, não as posso impedir
Sinto-me só, vazia e amargurada

As lágrimas não mais quero esconder
Nem esconder meus sentimentos
Não importa, não quero nem saber
Se alguém ouvir meus pensamentos

Os mais tristes, os mais angustiantes
Que tenho dentro do peito guardados
Deixo-os sair por breves instantes
Já estiveram tempo demais fechados

Dói a solidão que trago dentro de mim
E dentro de mim ouço algo rasgar
É a minha alma que está triste e assim
Desiste de tudo e de todos e até de lutar

Não quero pensar não quero sentir
Estou cansada desta luta inglória
Só quero deitar um pouco e dormir
E amanhã recomeçar a minha historia…


Cláudia Moreira

quarta-feira, 4 de março de 2009

Nada mudou











O sol não parou de brilhar
O mar não parou de subir e baixar
As flores não pararam de crescer
E o vento não parou de correr
A chuva não parou de cair
E o calor fez-se na mesma sentir
A neve continua branca e bela
E a flor do campo continua amarela
Os pássaros fazem ninho nos beirais
Como em todos os anos, iguais
O nono mês é Setembro
Tal como desde que me lembro
O cheiro das rosas continua maravilhoso
Assim como o da canela delicioso
Nada no mundo mudou
A ordem das coisas não se alterou
Todas continuam no mesmo lugar
Onde se acostumaram a estar
E nem choveram meteoritos
Nem ouvi ninguém aos gritos
Só porque tenho a alma vazia
Que ao contrario do que se dizia
Ainda ninguém veio preencher
E assim, aos poucos, foi fácil esquecer
Como se ama alguém de coração
Ficando apenas a eterna solidão!




Cláudia Moreira
“Poemas de Amor e Desamor”